ABANDONO - Casarão hoje conta apenas com as estruturas das paredes e está quase todo tomado pela mata

.. quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
ABANDONO - Casarão hoje conta apenas com as estruturas das paredes e está quase todo tomado pela mata




À mercê da ação do tempo, de vândalos e posseiros, em uma das regiões mais pobres da Grande Natal, repousam na cota de um morro as ruínas de uma edificação que, paradoxalmente, testemunhou um período de prosperidade e poder econômico responsável, durante o Segundo Império, pelo desenvolvimento do comércio e indústria da província do RN.



Trata-se da “Casa de Guarapes”, conhecida pelos nativos como museu velho, situada na margem esquerda da BR-226, estrada de Natal-Macaíba. Fundada pelo Major Fabrício Gomes Pedroza, na segunda metade do século 19, a casa foi residência e sede do maior entreposto comercial da Província, contava com um complexo de armazéns à beira do rio Potengi, onde foi construído um pequeno porto com um ancoradouro capaz de receber embarcações de até 500 toneladas. Guarapes foi responsável pelo escoamento de mercadorias tanto para as vilas e municípios do interior, quanto para outros países. 



O casarão, que hoje conta apenas com as estruturas das paredes está quase encoberto pela mata, com os cômodos tomados pelos destroços, servindo como abrigo para animais terrestres e de poleiro para aves silvestres. Teias de aranha por todos os lados dão um ar tenebroso ao ambiente. Tombado em 18 de dezembro de 1990 pelo Patrimônio Histórico Estadual através da Portaria nº 456/90 e, em 08 de fevereiro de 2002, o casarão juntamente com seu terreno teve sua área desapropriada e adquirida pelo Governo do Estado que a tornou de utilidade pública. Mas desde que foi tombada, o Solar de Fabrício Pedroza, “senhor de Guarapes”, nunca passou por um processo de restauração. 



O abandono do sítio histórico por parte do poder público e da própria sociedade se reflete na comunidade que não tem conhecimento da importância histórica do local como revela Judite Valdevino de Oliveira, moradora da região há 35 anos, que disse não acreditar que nos Guarapes já houve riqueza e prosperidade. “Aqui sempre foi e sempre vai ser um lugar pobre. É só observar o estado das estradas, da ponte do rio Guarapes, da violência, da marginalização. É tanto que esse casarão vive abandonado desde quando eu cheguei aqui”, afirmou Judite Valdevino.



Valério Mesquita, escritor, pesquisador e membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, autor do projeto que solicitava o tombamento da “Casa de Guarapes”, quando era membro do Conselho Estadual de Cultura, defende a restauração imediata do casarão associada a um plano de revitalização da área para que seja implantada uma espécie de museu no local, algo nos moldes da reforma que foi feita no engenho de Ferreiro Torto, em Macaíba. 



Para justificar a idéia de restauração do velho casarão, Valério Mesquita lembra que do alto das ruínas contempla-se um bela paisagem desenhada pelo rio Potengi, que ele descreve como um verdadeiro “corredor histórico”. Em instantes, ativa-se na cabeça do visitante uma espécie de “máquina do tempo” que por impulsos cognitivos projeta na mente imagens da época gloriosa de Fabrício Pedroza. Das janelas do Solar é possível avistar, já em São Gonçalo do Amarante, o monumento erguido em homenagem aos mártires de Uruaçu, exterminados pelos holandeses no século 17.



Sobre essa problemática da preservação do referencial histórico, o filósofo e político romano Cícero advertiu há mais de dois mil anos que “desconhecer a história é permanecer criança para sempre”.



Mascate que marcou a história 



O pernambucano Fabrício Gomes Pedroza, estabelecido em Natal no início de 1847, foi, segundo Luís da Câmara Cascudo, em “História da Cidade do Natal” (Ed. IHG/RN) e Wagner do Nascimento Rodrigues em “Potengi: Fluxos do Rio Salgado no Século XIX” (Ed. Sebo Vermelho), o responsável pelo mais poderoso e prestigiado domínio comercial de que se teve notícia no Rio Grande do Norte. 



O pequeno mascate que negociava pelos arredores da cidade acabou se encantando pela região que chamou de Guarapes, em Coité, hoje Macaíba, onde herdou por casamento algumas terras. No alto de uma colina, ponto estratégico à margem esquerda do sentido Natal/Macaíba, Fabrício Pedroza ergueu a “Casa de Guarapes”, uma capela, escola e casas de empregados. Em baixo, à beira do Potengi, construiu armazéns de taipa e um porto com ancoradouro quase tão extenso e profundo quanto o de Natal, capaz de receber embarcações de até 500 toneladas.



Algodão, sal, peles, especiarias e quase todo o açúcar produzido pelos engenhos potiguares eram escoados para o interior do Estado e até para o exterior. O entreposto comercial dos Guarapes, administrado por apenas um homem, chegou a desbancar o comércio da capital da Província. Para se ter uma idéia, de 1869 a 1870 vinte navios carregaram produtos para fora do país, enquanto Natal, no mesmo período, com todo o prestígio de capital carregou 21 embarcações.



Com a ascensão comercial de Guarapes, em 1859, foi construída a estrada que ligava São José a Guarapes e, em 1860, a estrada ligando o Baldo, em Natal, a Guarapes. Em 1859, o presidente da Província, Nunes Gonçalves, expressa em relatório o interesse de transferir a Capital para a região de Guarapes: “... reunindo as precisas condições de salubridade e fertilidade do terreno, pode brevemente constituir-se um ponto comercial intermediário desta Cidade a todo o interior da Província, e em uma época talvez não muito remota ser para ali transferida a sede da capital, visto ainda o grande favor que lhe assiste de um ancoradouro”.



De 1858 a 1870, sob o comando de Fabrício Pedroza, Guarapes foi o centro comercial de repercussão, fama e poder. Incentivou e desenvolveu a indústria açucareira com novas técnicas, popularizou as primeiras faturas, divulgou novidades de escrituração. Introduziu Coité nas crônicas sociais da Província. Todos os divertimentos o procuravam, mas gostava de ouvir o boi calemba e ver os negros dançarem bumba-meu-boi. Segundo o escritor e pesquisador, Valério Mesquita, o fundador de Guarapes foi o responsável pela emancipação do município de Macaíba. Doente, o Major Fabrício Pedroza deixou a direção dos negócios em 1871 indo para o Rio de Janeiro. Em 22 de janeiro de 1872, faleceu em Santa Tereza e foi sepultado no cemitério de São João Batista.



História de Guarapes vai virar um filme



A história hegemônica e paradoxal de Guarapes inspirou Josenilton Tavares, antropólogo e produtor cultural, a escrever um romance que resultará em um filme e, em seguida, em um livro.



Segundo Josenilton, a história, que ainda se encontra na fase de pré-roteiro, gira em torno do amor proibido entre um dos funcionários de Fabrício Pedroza e uma moça que trabalha no casarão e é tratada como afilhada pela família Pedroza.



O rapaz, tentando fugir com a amada que está prometida a um senhor mais abastardo, se envolve em uma aventura ao longo do rio Potengi. O cenário em que a história se desenvolve vai desde Guarapes, passa pela feira do Passo da Pátria e também retrata o tráfico desenvolvido nas proximidade da Redinha. A história finaliza nos dias atuais com a depredação do Solar de Fabrício Pedroza pelos caçadores de botijas (espécie de potes onde eram guardados dinheiro e jóias), filhos dos violentos assentamentos subnormais da atual região de Guarapes.



Tombamento não garante a preservação



A professora de história da UFRN, Margarida Dias, explicou que no Brasil existe uma cultura de se promover o tombamento de elementos pertencentes às elites oficiais. Normalmente são transformados em Patrimônio Histórico palácios, igrejas e fortes. Residências particulares e prédios comerciais normalmente são marginalizados nesses processos. 



Segundo a professora, qualquer pessoa pode, mediante uma justificativa, solicitar o tombamento de qualquer coisa que seja importante para a memória e história da comunidade como festas, danças, culinária, não apenas o patrimônio arquitetônico. “Infelizmente, falta educação ao povo para poder definir o que é importante do ponto de vista histórico. Não existe discernimento para garantir a preservação do testemunho da cultura popular. O princípio de tombamento parte do sentimento de posse, ou seja, de que o patrimônio faz parte da vida do indivíduo. Apelar para a memória é algo gostoso de se ver!”.



Revitalização é sempre necessária 



Margarida Dias adverte que tornar uma edificação como a de Guarapes Patrimônio Histórico e Cultural não garante a preservação do objeto tombado. É preciso associar ao tombamento políticas para a revitalização da área e incentivo à visitação. “Imagine o quanto levantaria a auto-estima da comunidade dos Guarapes, se o local fosse transformado em um complexo cultural associado ao turismo. Teríamos história, lazer e retomada do desenvolvimento para a região”.



A coordenadora do Centro de Documentação Cultural Eloy de Souza, Isaura Rosado, disse que existia um projeto para transformar a Casa de Guarapes em um museu, mas não foi providenciado verba para as obras, já que o Governo do Estado, na área histórico-cultural, priorizou o processo de interiorização de ações culturais e na Capital a restauração e transformação da antiga estação de trem da Ribeira em Estação Central de Apoio à Cultura Popular.
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